domingo, 26 de fevereiro de 2012

"Alô, Alô Marciano! Aqui quem fala é da Terra!"

Na publicação do dia 6 de Setembro intitulada "Aprendendo a estar "In Scoring Position" eu contei rapidamente sobre a maneira milagrosa como regressei a Espanha em 1992. Também escrevi sobre os monólogos que tive com Deus naquele dia tão difícil da minha vida. 


A palavra monólogo origina-se do Grego monólogos. De acordo com o dicionário da Língua Portuguesa, um monólogo é o discurso de uma pessoa só. Simples não é? Só que as coisas estavam a ponto de ficar um pouco mais complicadas.
É impressionante a nossa habilidade de "monologar" com Deus. Monologar com Deus transcende religião ou crença. O Católico monologa com Deus, o Crente monologa com Deus e até o Ateu monologa com Deus na hora da verdade...  é só o calo apertar que o monólogo com Deus começa. 
Geralmente não paramos para escutar o que Deus tem a nos dizer, simplesmente monologamos - geralmente pedindo alguma coisa para nós mesmos ou para outros. Mas dificilmente paramos para ouvir uma resposta. Talvez porque não estamos mesmo buscando uma resposta, ou talvez porque não acreditamos que o Deus Todo Poderoso, o Criador do Universo, tenha tempo ou interesse em falar com "este mero pecador."
Mas nos dias seguintes do meu regresso à casa do Titi e Irinete, uma das coisas que me impressionaram ao observar o Cristianismo vivido por meus "hospedadores" foi que eles escutavam a voz de Deus sobre as coisas do seu dia a dia. Eles conversavam entre si sobre "entender e obedecer a vontade de Deus" e apesar da estranheza do conceito, tal ideia me fascinava! 
Os dias foram se passando... e logo as semanas também... E nada de eu conseguir algo pra fazer em Azuqueca de Henares. Com a recém formação da Comunidade Européia, as oportunidades de trabalho para "ilegais" foram desaparecendo, pois ninguém queria empregar um ilegal sem saber direito as novas consequências que estariam por vir.  Pouco a pouco meu dinheiro ia se acabando e eu sabia que alguma coisa tinha que acontecer rapidamente, mas não sabia como.  
Foi então que em um belo dia de domingo, fomos almoçar na casa de uns amigos de Titi e Irinete, Gabriel e Patricia Jimenez. Gabriel era um jovem senhor Espanhol e Patricia, uma jovem senhora Neo-Zelandesa. Elas eram os diretores nacionais de uma organização internacional chamada "Youth With A Mission" - Jovens Com Uma Missão. Boa parte da conversa ficou centrada na incrivel história do filho adotivo do Titi e da Irinete: eu.
O Gabriel me explicou sobre a organização dirigida por ele, sobre a diversidade de culturas trabalhando voluntariamente em quase todos os países do mundo. Em um determinado momento da conversa, Patricia começou a me explicar que em apenas uma semana, eles estariam dando início a um curso de cinco meses com a participação de jovens de vários países da Europa e também dos Estados Unidos. Gabriel então me perguntou se eu estaria interessado em fazer parte daquele curso. Ele me disse que naquela semana enquanto os líderes do curso participavam de um momento de oração, alguns deles haviam escutado de Deus que um aluno sul-americano estava por vir - mas eles até então não haviam recebido nem mesmo uma solicitação de informação vinda da América do Sul. A Patricia então me disse que agora acreditava que Deus estava se referindo a mim quando falou com os líderes naquela semana.
"-Tá de brincadeira!" - monologuei comigo mesmo. 
Então eles lançaram um desafio: "-Porque você não ora e pergunta para Deus se este é o propósito d'Ele ter te trazido de volta a Espanha?"
"-Fala sério?" - monologuei uma vez mais.
Finalmente havia chegado a minha vez: eu precisava tomar uma decisão importante. Só que estas novas pessoas que eu acabava de conhecer tomavam decisões de uma maneira muito diferente do que eu jamais havia visto ou ouvido. Eles pediam direção a Deus para tomar suas decisões. 


O Gabriel não perguntou se "eu queria" - ele me disse que perguntasse a Deus o que ELE queria que eu fizesse; o que era um conceito completamente novo para mim: conversar com Deus. 
Essa gente acreditava mesmo que Deus fala com o homem hoje! 
Me lembrei daquela música "Alô, Alô Marciano! Aqui quem fala é da Terra!" - pois foi assim que me senti: como alguém que precisava se comunicar com um extraterrestre!
Eu tinha apenas alguns dias para responder no seguinte formato: "-Eu creio que Deus quer que eu..." 


(Continua na próxima publicação)





     

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Alma Rasgada - Deixando o Brasil para tras uma vez mais.

Ontem  fiquei bem alerta ao estado da minha alma no momento que saía da casa dos meus pais. Era como se algo se rasgasse dentro de mim, dentro da minha alma. E' como se eu fosse me desconectar dolorosamente de uma realidade por um tempo indeterminado.

Pensei que vinte anos depois seria um pouco mais fácil sair do Brasil, mas aquele primeiro passo é sempre muito duro.

Vinte anos depois e eu ainda não sei sair do Brasil sem chorar. Continua sendo muito duro deixar para tras essas pessoas quem eu amo tanto. Deixar para trás minha identidade. Chorei sozinho. No Avião.

Uma hora e meia no carro ajudam a amenizar a ansiedade da saída.

O mais interessante foi notar que houve um determinado momento no aeroporto, logo que fiquei sozinho; em que eu tive que fazer um consciente ajuste mental. A partir daquele momento eu optei por deixar de lado a minha brasileirice. Nunca ate então havia notado isso. Foi algo como apertar um interruptor e fazer uma mudança de atitude, de agir, e da forma de pensar.

O mais interessante foi ouvir o agente de imigração dos EUA me dizer "welcome home sir." Não me lembro de ouvir um agente de imigração no Brasil em vinte anos me dizer "bem vindo a casa."

Não sei se tenho casa. Não me sinto 100% em casa aqui depois de 10 anos residindo no pais, mas também não me senti 100% em casa nos dias que passei no Brasil.

Minha casa esta no céu.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

O Tal do Choque Cultural Reverso


Nada melhor do que celebrar o dia dos 20 anos da viagem que mudou a minha vida encalhado em um aeroporto! O vôo que me levaria ao Brasil estava marcado para sair de Chicago mas acabou sendo cancelado devido aos vários atrasos por causa das nevadas por toda a região norte dos EUA. Com isso a empresa aérea colocou todos os passageiros do vôo 843 para passar a noite em hotéis e remarcou nossa saída para o dia seguinte.

Porta de Embarque, Aeroporto de Chicago
Horas antes, ainda em Spokane, eu resolvi que iria viajar vestindo uma bermuda, pois não havia motivos para sair do aeroporto ate que eu chegasse em São Paulo... Só’ que com o cancelamento do vôo de Chicago, lá fui eu esperar pela chegada do ônibus por mais de uma hora do lado de fora do aeroporto. Enquanto os demais passageiros estavam  apropriadamente vestidos para o clima, com luvas, cachecóis, casacos, botas e gorros, eu vestia uma camiseta de mangas cumpridas, tênis e bermudas!



Depois de uma noite bem dormida, sai do quarto ao meio dia, esperei por algumas horas a mais no saguão do hotel e logo fui ao aeroporto esperar pela saída do meu vôo ao Brasil as dez horas da noite. Assim eu celebrei uma das datas mais especiais da minha vida: o dia em que cheguei na Espanha em 1992 encalhado no aeroporto de Chicago. 

O tal do choque cultural reverso:

Sou Brasileiro. Em teoria, eu não deveria ter problema nenhum com a minha própria cultura - mas não e bem assim. 

  • Logo no aeroporto, me irritei com os meus conterrâneos cortando a fila para entrar primeiro no avião... não entendi toda a pressa e fiquei indignado com a falta de educação. 
  • Ao chegar em Cumbica, um empurra- empurra para se posicionar ao lado da esteira onde as malas são colocadas. Creio que o fato de estarmos chegando a São Paulo com 24 horas de atraso contribuiu para tanta ansiedade.
  • Depois de muito esperar, descobri que uma de minhas malas havia ficado em Chicago. Imediatamente uma correria para se formar a fila para preencher formulários para reclamar as malas perdidas. Nesta nova corrida, dei uma de Brasileiro e cheguei em sexto lugar  em uma fila de umas 25 pessoas.
  • Na viagem de São Paulo a Taubaté, foram vários "quase- ataques do coração" pela maneira agressiva de se dirigir. Na via Dutra os motoristas conduzem seus veículos sempre muito próximos aos carros que estão a frente e as ultrapassagens são sempre muito próximas.
     
  • Um dia apos minha chegada, recebi duas visitas não anunciadas. Minha primeira reação foi de irritação - afinal de contas, quem simplesmente aparece na porta de sua casa sem apenas anunciar antes? Em seguida, houve a realização de que minha expectativa não era realista pois no Brasil uma visita não anunciada e' aceitável na maioria dos casos. Além do fato de que eu desfrutei muito das visitas.
Estes são alguns pequenos exemplos do que acontece nos primeiros dias do regresso ao Brasil. 

Mas também percebo de imediato, toda a beleza do nosso pais. O verde fazendo contraste com a terra vermelha pode ser visto por todas partes. O céu parece mais azul (principalmente ao sair de São Paulo). Mas o mais impactante, é que de repente as pessoas são "menores." Fico chocado com a diferença no tamanho das pessoas... onde estão os gordos? Claro que também temos nossos gordinhos e gordinhas, mas e' que nos EUA é um pouco alem do limite.

Hoje fui ao Mercadão pela manha para comer pastel na Pastelaria do Noguti. Este evento já virou  tradição. Também passei pela Sapataria Escolastico para dar um abraço em uma amiga, a Silvia - outra tradição de 20 anos! 

Com isto meu tempo aqui no Brasil vai se acabando, pois na quarta feira já regresso aos EUA. Também terminamos por aqui o tema sobre Choque Cultural. 

Nosso proximo passo no blog Coluna do Adriano será dar prosseguimento as minhas aventuras lá na Espanha, onde ainda estamos em Fevereiro de 1992.








quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Vinte anos se passaram. Feliz Aniversário pra mim!


Ford do Brasil, Taubate' 1991

No meu ultimo post de 2011 escrevi sobre o "choque cultural" e em apenas 15 dias estarei passando por esta experiencia novamente. Chego no Brasil no dia 21 de Janeiro próximo. Exatamente no dia que completam vinte anos da minha chegada à Espanha. Certamente, será um momento especial tanto para mim, como também para os meus pais e irmãos, pois vinte anos não são poucos anos. Em vinte anos muitas coisas mudaram. O que mudou na sua vida nos últimos 20 anos? Talvez ainda fosse um bebe, ou talvez ainda nem estivesse vivo (a)!

Em vinte anos, minha vida mudou muito. Pena que algumas das coisas que eu estava fazendo há vinte anos atras não são dignas de serem lembradas, muito menos de serem escritas e registradas.

Vinte anos depois eu volto, mas não o mesmo. Além dos vinte anos a mais - que podem ser notados pelo processo de queda de cabelos nas regiões fronto- temporais, as famosas "entradas"- trago comigo vinte anos de influências trans-culturais, européia, arabe, orientais, mas principalmente norte americana, por razão dos dez anos que já levo como residente nos Estados Unidos.

Mesmo com tantos anos e tantas influencias, em essência, sou Brasileiro e apaixonado pelo Brasil.

A vida e os anos nos ensinam muitas coisas. Ao completar vinte anos desde minha primeira aventura, tenho tentado refletir nas coisas importantes que aconteceram e o que tenho aprendido ao largo dos anos.

Eszter e eu. Budapeste, Hungria 1997.
Entre outras coisas, na Europa eu aprendi que uma amizade não acontece com a mesma rapidez que acontece no Brasil. As pessoas demoram um pouco mais para se sentirem confortáveis com "desconhecidos e estrangeiros." Mas eu aprendi que vale a pena persistir e investir, vale a pena se dedicar e servir, pois uma vez amigos, amigos para sempre! No Brasil somos mais "dados" - mas ao mesmo tempo somos muito rápidos em descartar um "amigo".




Piramide de Giza, Egito 1997. 
No Oriente Medio aprendi que as coisas nem sempre precisam acontecem na velocidade com que estamos acostumados no Ocidente. Quando cheguei no Egito em 1997 eu quiz "fazer acontecer." Vários Egípcios com quem tive a oportunidade de conviver e conversar me recomendaram "ir com calma". Como dizem os Egípcios, "as pirâmides não foram construídas da noite para o dia, então para que ser tão impaciente?" Na epoca nao entendi a mensagem. Hoje, olho para tras e vejo com clareza. Quizera voltar no tempo... uma pena que não é possível!





Baher e eu. Guangzhou, China.
Jogando futebol na China eu dava um olé no menino chinês e ja me preparava para o proximo. De repente o mesmo voltava, e aproveitando-se da minha desatenção, roubava a bola de mim. Isso aconteceu várias vezes até que eu percebi que na mente do menino chinês, "levar um olé não é razão para se dar por vencido no jogo." A atitude do menino brasileiro no campo é muito diferente, pois depois de tomar um drible, o jogador dá a sua participação por encerrada naquela jogada e fica por lá mesmo. Na China, aprendi que levarei dribles e tombos na vida, mas que estes somente devem me animar ainda mais a ir em busca dos meus objetivos. Apesar da pouca qualidade técnica, os meninos chineses tem raciocinio rápido. Mas sua maior virtude na minha opinião, e a sua determinação.


Aqui nos Estados Unidos desde muito jovem, a criança e ensinada e treinada para ser independente e auto suficiente. Exceções existem, mas na maioria dos casos, o jovem deixa a casa dos pais aos dezoito anos de idade. A expectativa e que ja tenha um emprego que possa cobrir suas necessidades básicas. Um adulto morando na casa dos pais não e visto com bons olhos.

Me dou conta que os pais americanos criam seus filhos com o proposito de que tenham êxito e façam boas escolhas a partir dos dezoito anos quando saiam de casa. No Brasil, os pais nao se preocupam tanto em preparar a criança para ser um individuo auto suficiente. Minha impressão e que criam os filhos para si mesmos, para que fiquem por perto.  Sera que a minha perspectiva esta correta? Por favor deixe sua opinião nos comentarios.

Enfim, em breve estarei por ai. Durante minha estadia de apenas dez dias, estarei escrevendo sobre o meu "choque cultural" diariamente. Vai ser muito interessante poder passar por esta experiencia e relata-la aqui no Tangram das Idéias - Coluna do Adriano. Não percam!

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Peixe Fora d'agua: Choque Cultural

Nos dias e semanas seguintes do meu regresso a Espanha, minha vida continuava a passar por transformações profundas.  Quando eu sai do Brasil, ninguém me falou sobre um fenômeno chamado "choque cultural."



O choque cultural acontece quando saímos de um lugar onde estamos completamente familiarizados e nos trasladamos a um outro lugar, onde a maneira como as coisas acontecem no cotidiano são diferentes das quais estamos acostumados. Essas diferenças interrompem o "fluir natural" da maneira como funcionamos na sociedade e nos obriga a fazer um esforço consciente para nos encaixarmos no dia-a-dia do novo lugar onde nos encontramos.

Exemplo: Quando criança, íamos visitar parentes Floriano, RJ. Sem dar-nos conta, passávamos por um período de "choque cultural":
  • Como cumprimentamos alguém quando somos apresentados? um beijo, dois, ou três?  
  • Por onde subo no ônibus, pela porta da frente ou pela porta de trás? 
  • Pronunciação da letra r como paulista ou como paulistano?
  • Uso de alguma palavra que significa alguma outra coisa naquela cidade.  
Nos primeiros dias, me sentia como um verdadeiro peixe fora d'água, mas logo entrava no ritmo e me adaptava aos costumes locais.

Sociólogos e Psicólogos certamente podem explicar mais profundamente sobre o tema, mas desde o meu ponto de vista "leigo" e da minha experiencia pessoal, eu pude observar alguns sintomas bastante comuns do choque cultural:

Sintoma #1: Fascinação com as primeiras impressões.
A curiosidade e' imensa, as coisas sao estranhas e curiosas.

Sintoma #2: Cansaço, solidão e frustração.
O esforço para se adaptar começa a esgotar-nos emocionalmente, intelectualmente, e também fisicamente. Especialmente se houver uma certa dificuldade em aprender a língua local, o desgaste emocional e o sentimento de solidão geram uma frustração que pode levar-nos (em casos mais extremos) a abandonar a "aventura" e voltar correndo para a casa. Inicio do sintoma #3...

Sintoma #3: Saudades e espirito critico.
Nesta nova fase, que geralmente bate aos 3 meses da estadia, as saudades comecam a apertar. Nos damos conta de quanto a família faz falta, como são importantes. Ate sentimos um pouco de culpabilidade por não tê-los valorizado os momentos deixados para traz. Ao mesmo tempo, comecamos a desenvolver uma atitude critica com relação as diferenças culturais observadas. 

Sintoma #4: Refugio
Para mim, a fase mais crucial de todas. Este e' o momento onde nos apegamos a qualquer brasileiro que encontramos e sem dar-nos conta, começamos a formar a nossa pequena "colonia Brasileira." E' nesta fase que muitos param e jamais saem dela. Por esta razão muitos nunca aprendem o idioma local, e jamais se encaixam no dia-a-dia da sociedade o que resulta num estancamento do crescimento intelectual e expansao de novos "horizontes."

Sintoma #5: Identificação
Para aqueles que conseguem superar a fase de "refugio" a recompensa e' a identificacao com a nova cultura.

Experiencia cultural Butão: Jantar e celebração com os participantes do Congresso Nacional de Futebol da FIFA em 2001.

Na verdade, nunca deixarei de ser Brasileiro na minha alma (mesmo que o meu português escrito e falado se deteriorem com o passar dos anos!!). Mas em cada um dos 32 países por onde passei, procurei sempre estar no meio do povão, andando no transporte publico com eles, passando tempo com os "locais" (alias tenho que admitir que ate fugi dos Brasileiros diversas vezes...) para que a passagem pelo período de "refugio" fosse abreviado.

Bangalore, India - 1998

Um fator que me certamente me ajudou muito e' que em cada lugar por onde estive, havia em mim um sentido de "missão a cumprir."

Nos próximos posts, vamos explorar estas experiencias de várias perspectivas, enfocando especialmente na "missão a cumprir."

Você já experimentou o choque cultural? Pode citar mais exemplos de choque cultural dentro do próprio Brasil??

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Minhas raízes: sem esquecer-me de onde venho



Alguns dias atrás, vivi uma situação interessante no meu trabalho, que me fez refletir bastante. Como coordenador de esportes aqui da Cidade de Spokane, eu sou responsável por vários programas esportivos para a população.  Alguns destes programas acontece durante os meses mais frios (Outubro e Abril) e por isso são realizados dentro de ginásios esportivos.

A cidade de Spokane não possui um ginásio poliesportivo próprio, mas um convênio que existe já a muitos anos entre o Departamento de Recreação e Esportes da prefeitura e a Secretaria Municipal de Ensino nos permite utilizar os ginásios esportivos das escolas do ensino fundamental, os quais são bastante grandes e geralmente possuem de três a quatro quadras de voleibol cobertas.

Apos submeter os meus pedidos para o uso das quadras em 2012, a Secretaria Municipal de Ensino havia determinado que 11 dos meus 23 programas haviam sido negados por uma razão ou outra.

Mais tarde fui saber que a secretaria de ensino vem formando nos últimos anos, outros convênios com outras entidades e grupos locais (escoteiros, YMCA, etc.) dando a eles o mesmo nível de prioridade dado ao Departamento de Recreação e Esportes da prefeitura, afetando desta forma, algumas das escolas que eu usava para minhas ligas esportivas.

E' importante entender que o convenio entre a Secretaria Municipal de Ensino e o Departamento de Recreação e Esportes da prefeitura existe já a mais de 40 anos.Este convenio foi formado nos anos 70, quando a Secretaria Municipal de Ensino necessitava de ginásios para as crianças do ensino fundamental, e o Departamento de Recreação e Esportes da prefeitura necessitava de espaço para a população adulta praticar esportes como voleibol e basquetebol.

O que foi então decidido, e' que o Departamento de Recreação e Esportes da prefeitura faria doações financeiras, além da concessões de terrenos adjuntos as escolas para a construção dos ginásios. Em troca, a prefeitura teria prioridade de acessar estes ginásios quando os alunos não estiverem ocupando. Este convênio funcionou de maravilha por 30 anos, mas nos últimos 10 anos, os atuais funcionários da Secretaria Municipal de Ensino, incluso o superintendente de ensino, não tinham conhecimento de como o convênio havia sido forjado a 40 anos atrás. 

 
 Acima, um dos programas que eu coordeno. Tênis para crianças de 4 a 8 anos.



Para encurtar uma longa historia, estamos em processo de  reeditar um novo acordo, baseado no primeiro escrito a 40 anos, onde a nossa posição de usuários prioritários dos ginásios será mais uma vez confirmada.

Moral da historia:

Assim como o futuro dos programas que eu coordeno dependem de algo firmado pela primeira vez 40 anos atrás, da mesma forma e' importante para mim não esquecer-me de onde venho e como vim parar aqui. Se a historia deste convenio tivesse caído no esquecimento, eu seguramente perderia a habilidade de levar a cabo o meu trabalho.

Eu e meu irmão, em 1987.

Pessoalmente, conhecer e reconhecer a minha cultura e a minha historia e' muito importante pois me ajuda a conhecer mais de mim mesmo, minhas tendências, minhas carências e meus atributos enquanto direciono o futuro da família que Deus me deu.  



Por esta razão Bellinha e Elan são Brasileiros - de passaporte e certidão de nascimento. Por isto também ha cinco anos tenho me esforçado para que meus filhos possam aprender a língua portuguesa. Não tem sido fácil, pois com certeza e' muito mais fácil conversar com eles em Inglês, que e' a língua que eles estão aprendendo no dia a dia. Mas mesmo que hoje eles somente entendam o que falo em português, um dia através de uma maior exposição a língua portuguesa, espero que possam assimilar rapidamente e comunicar-se com este idioma que esta gravado nos seus corações. 

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Aprendendo a estar "In Scoring Position"

A analogia que eu quero fazer e' esportiva mas se aplica diretamente a vida espiritual.

Para um atleta de alto rendimento (profissional) poder marcar um gol ou fazer uma cesta, e' necessário que ele saiba se posicionar no campo ou na quadra, para que no momento em que ele receba a bola, se encontre em condições de definir a jogada da maneira mais eficiente possível: In Scoring Position.

No meio de tudo o que eu vivi naqueles dias, eu comecei a entender que o melhor na vida e' estar exatamente onde Deus quer que eu esteja, no momento que Ele me quer la... Nos anos seguintes, eu continuaria aprendendo esta lição. 
____________________________________________________________

Eu queria a minha mãe!

Depois de tudo o que eu havia passado nas ultimas 30 horas, eu só queria um abraço para poder desabafar e chorar. So que eu estava de volta na Espanha, onde a única opção era ser forte, pois a mamãe não estava.

O meu plano era voltar para a casa do Titi e da Irinete... mas eles ainda não sabiam. Tentei ligar, mas não conseguia completar a ligação. E a única coisa que eu sabia era que eles moravam em Azuqueca de Henares, na província de Guadalajara, a uns 45 minutos do aeroporto de Barajas. Não tinha nem o endereço deles comigo (???) mas decidi que iria a Azuqueca e de alguma forma, encontrar a casa.

Em todo tempo, eu conversava com Deus, falava com Ele em pensamentos ou as vezes ate em voz alta. Em nenhum momento me senti sozinho, sentia a Sua presença ao meu lado, sentia também que estava sendo guiado por Ele para um futuro muito diferente daquele que eu havia imaginado... mas nao tinha a menor ideia o que estava por acontecer e o quanto a minha vida seria transformada.

Trem da RENFE - "Cercanias de Madrid"

Fui do aeroporto de Barajas ate a estação mais próxima de trem em ônibus. Logo tomei o trem com destino a Guadalajara, o qual passaria por Azuqueca. Depois de 45 minutos, desci do trem em Azuqueca ao redor das 9 horas da noite. Com uma mochila nas costas (e arrastando uma outra bolsa enorme), sai pelas ruas de Azuqueca, tentando me recordar de lugares que havia visto durante as semanas que passei com Titi e Irinete.



Para onde vou???  Estação de trem (1) - Casa de Titi e Irinete na Calle Rio Gallo (2)... mais ou menos 1 1/2 Km.
Ao sair do trem, sabia que deveria seguir para o Norte da cidade e que deveria procurar pelo "Polideportivo," uma quadra coberta que estava a alguns quarteirões da casa do Titi.  Assim que marchei pela cidade, reconhecendo alguns e outros lugares ate que encontrei o tal "Polideportivo..."

O meu coração batia mais forte a cada passo. A bolsa já não pesava mais. Os passos se apertavam e eu me vi andando cada vez mais rápido ate que cheguei na Calle Rio Gallo... era questão de minutos agora. "Obrigado meu Deus!"
Grandes recordações...

Mas qual sera a reação deles ao me verem na porta, de mala e cuia... de repente a duvida bateu a porta do meu coração... mas ali estava eu. Parado frente a porta da casa do Titi, Irinete, Filemon e Kesia.

Toquei a campainha. Titi abriu a porta e com lagrimas nos olhos chamou a Irinete que gritou ao me ver "ADRIANO!" Logo chegaram as crianças que também choravam. Nos abraçamos ali na porta.

Eu simplesmente desmoronei emocionalmente e deixei que o amor de Deus por mim, expressado através daquela família, invadisse a minha alma e me curasse. Aquela recepção de amor era tudo o que eu precisava para colocar um ponto final em tudo o que eu havia passado nas ultimas 32 horas da minha vida. Seus braços eram os braços do Pai, cheios de amor, aceitação e perdão.

O amor que o Titi, Irinete, Filemon e a Kesia me deram foi extravagante. Foi abundantemente muito mais do que tudo o que eu já havia experimentado de pessoas "estranhas." Eu não conseguia compreender aquilo, mas eu sabia que vinha do coração de Deus. Aquela família amava a Deus muito e o amor de Deus simplesmente fluía através de suas vidas. Era natural.

Foi então que eu comecei a entender que o melhor e' estar in Scoring Position.